Ficção

Ave ou pássaro?

Junho 19, 2016

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Esta história acaba com uma pergunta –  Será que ave e pássaro são a mesma coisa?  Mas no começo  há outras perguntas que se fazem mais  urgentes: estamos perante um voo que descola ou outro que pousa?  Será esse voo que nos faz decidir entre pássaro e ave?

Na hora de por a mesa” é  um belo exercício de estilo radiofónico. Meia hora de sons e palavras num ritmo constante onde a autora, a jornalista da TSF, Isabel Meira com a sonoplastia Herlander Rui, conduz a história sem precisar de falar. Como se um jornalista de rádio pudesse ser mudo. 

Logo me ocorre outro voo, outro pássaro, outro poema, outra liberdade feita despertar pelo poeta Eugénio de Andrade: 
É um pássaro, é uma rosa, É o mar que me acorda? Pássaro ou rosa ou mar, tudo é ardor, tudo é amor. Acordar é ser rosa na rosa, canto na ave, água no mar. 

Ouço mentalmente, meticulosamente, o poema e  imagino as palavras do poeta a ecoarem, dentro de grades, na alma dos reclusos, a levantar voo para logo a seguir pousarem de novo. 

“Palavra” e “Liberdade” são velhas conhecidas, rivais e companheiras desde que existe aquilo que designam. Desde quando alguém  disse  “sou livre” e até que outrém calou essa liberdade.

É nisto que ave e pássaro se distinguem. Pelo que está para além do voo. Pelo metavoo. Pelo olhar. 

A Poesia Não Tem Grades” é um projeto de voluntariado que existe há mais de uma década dinamizado pelo Grupo O Contador de Histórias. Em cada estabelecimento prosional os poemas cruzam-se com o passado, o presente e o futuro da vida dos reclusos. De quem esteve preso e encontrou na escrita uma forma de liberdade.

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