Ficção

O mês que também foi meu

Maio 16, 2016

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O Livro de Areia  disputa com a Biblioteca de Babel a impaciência matemática deste texto.

Mas afinal quantas palavras cabem entre o princípio e o fim? É realmente infinito o seu número? Ou é apenas por isso que é numerável, mesmo que não se possa dizer.

Esta questão prende-se exatamente com o dia de hoje. Este, em que uma data se faz pedra de entre todas as outras, marcando, cinzelando, indelevelmente o dia em que nasceste. Esse dia claro onde eu, por capricho ou erro, nunca se poderá demonstrar, escolhi não te ir ver nascer.

Havia de ser por engano ou por qualquer outro motivo mensurável que agora, muitos anos depois, como antes outro, frente a um pelotão de fuzilamento em Macondo, escolhi Aleph para te demonstrar que é realmente infinito o que nos une.

Deito um 8, chamo-lhe infinito. Invoco os deuses e adormeço. Nunca há metafísica bastante por não pensar em nada. Nunca há tempo que sobre nem madrugadas que cheguem.

Aponto ao céu e espelho a terra. No plano oblíquo do desenho mágico suporto a Lotaria da Babilónia, a Doutrina dos Ciclos e o Argumentum ornithologicum, esse mesmo, o que descansa numa das páginas da tua mesa de trabalho à procura de redenção e de um caminho, sem que se possa, ainda, dizer o que o espera.

Mas espera, espera, não celebres já, não sopres as velas, dá-me mais um minuto. Prometo, sem lhe aumentar um segundo, demonstrar-te nele, que nos conhecemos desde o princípio dos tempos e que é apenas uma ilusão que tudo é recente. Talvez te tenha ido ver nascer, só não to digo.

Era já assim desde o princípio dos tempos, e posso demonstrá-lo, mesmo que não seja verdade, nem isso importa, porque a verdade nunca é maior que o conjunto das partes que a revelam.

Não posso acreditar que a história dessa noite tivesse sido um simulacro. Não por que aconteçam coisas estranhas, inumeráveis. Nem porque choras na presença do passado mais querido, riso erguido, na nossa mesa elipse, a tua mais querida esfinge Física do Egipto.

Ela foi apenas o princípio, a capa, a portada, o ponto de partida que definia o capítulo seguinte, o da chegada. De permeio, todas as árvores do mundo, passeio de comboio, Zenão e Eleias, Alentejo seen from the train.

Sei que sabes contar até dez com tanta certeza como que percebes o amor quando te encontra.

É porque o todo nunca é maior do que qualquer das partes, que é infinito o nosso tempo.

Assim to digo, em diagonais de Cantor e almejando o universo inteiro, que fomos feitos um para o outro. Assim te exorto a salvar Veneza.  Não porque sem nós esteja perdida, mas porque sem nós não pode sequer existir.

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