Abril 2016

Faena

Faena

Combinavam-se de encontros no parque infantil contíguo à praça de touros. Chamavam-lhe carinhosamente uma coisa temível: Matadouro de saudades. Não tinha, é certo, a graça das verónicas, a precisão do estoque ou a volúpia dos pasodobles, mas valia mais que um rabo e as orelhas.  Debaixo das bétulas e dos jacarandás bem no meio do Continue reading Faena

Antes de dormir

Antes de dormir

Deitado na cama aponto os olhos ao teto branco cinza escuro, quase negro, iluminado apenas pelas sombras que entram pela única janela do quarto. Para adormecer tento encontrar formas e  significados às manchas de luz que cada carro que passa  lá fora deixa na penumbra. A luz é tímida que quase não impressiona. Não há Continue reading Antes de dormir

Metamorgato

Metamorgato

Tu. Nem uma palavra nem um suspiro nem um som. Nada. É como se tivesses desaparecido no céu depois da taça de gelatina. Imaginas-te sem saber bem porquê, de saia comprida, como naquelas fotos sépia de sufragista, a andar, vigorosa, cinzenta escura, por cima da calçada, passos largos; sou uma cientista qualitativa, olha que não Continue reading Metamorgato

Run

Run

Esfalfo  o chão  Asfalto  a luz Corro Esmurro o gosto Travo  o tempo Corro Não desisto  Insisto Grito  Só (Corro)

Na Ode para o futuro

Na Ode para o futuro

Falareis de nós como de um sonho. Crepúsculo dourado. Frases calmas. Gestos vagarosos. Música suave. Como quem inventa o fim de tarde num citadino jardim inesperado e se encontra desejando o mar Pensamento arguto. Subtis sorrisos. Paisagens deslizando na distância. Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente. Nos breves segundos de um ascensor Continue reading Na Ode para o futuro

O dia de amanhã

O dia de amanhã

EVOHÉ “Alguém diz com lentidão, Lisboa sabes? eu sei…” Caminhas com a graça de princesas tão belas como a beleza, Evohé, descendo as ruas da cidade,  do lado ímpar da estrada, ao encontro do amor “É uma rapariga descalça e leve, um vento súbito e claro nos cabelos…” Estava um frio quente, entardecia a primavera e havia sol, Continue reading O dia de amanhã

Despertar

Despertar

É um pássaro, é uma rosa, é o mar que me acorda? Pássaro ou rosa ou mar, tudo é ardor, tudo é amor. Acordar é ser rosa na rosa, canto na ave, água no mar. Coração do Dia – Mar de Setembro de Eugénio de Andrade

Calçada de Carriche

Parecia vagamente um velho céu estrelado daqueles que antes se usavam no cinema mudo. Podia ser uma nuvem de planetas pintada por uma senhora monótona, a julgar que fossem astros cintilantes.  Podia ser um vestido premiado no concurso de chita.  Podia ser o mapa de um terreno minado ou um esboço para a maior cabra Continue reading Calçada de Carriche