2,8

Regresso a casa e olho o céu. Um emaranhado de nuvens finas desenha na luz límpida da manhã umas linhas claras e muito bem definidas. Rasgam o azul com a mesma geometria daquelas, que, nas nossas mãos, definem a sorte. Procuro nelas sinais para o futuro.

Olho o ano que em breve termina e penso no que se transformou desde o último solstício de inverno.

Inexorável o tempo é implacável metrónomo. Tudo se passa no seu compasso.

Sustenho a respiração e sinto. Intuo o movimento e, de um fôlego, começo a ouvir. Largo, larghetto, adagio, andante, andantino, allegro, allegretto, presto, prestissimo. Tempestuoso. Amor, alegria, trabalho, tristeza, sofrimento. Tudo depende do ritmo que o tempo impõe.

Mas a nós, comuns mortais, cabe-nos muito. Se a pauta está marcada pelo ritmo somos nós que nela definimos as notas da melodia. Com a nossa fé, a nossa ética e o nosso compromisso, connosco próprios e com os outros, pontuamos esse ritmo imposto às nossas vidas.

Nesta criação devemos utilizar, sempre, as duas maiores fortunas que Deus nos dá: a liberdade e o amor. São elas que nos definem como seres humanos. A nossa capacidade de amar e a liberdade para decidir são a marca indelével do nosso caráter, da nossa imagem partilhada, da nossa biografia.

Nunca amamos demais nem nunca somos livres demais. Este é o axioma, o maestro, o fio condutor da nossa orquestra. Cordas, madeiras, metais e percussão, atingem a perfeição melódica quando são tocados com amor e liberdade.

Mas na pauta da vida há outro ator que nos define, um ser fascinante maior que ritmo e a melodia, maior que o tempo e a poesia. A sorte.

Por mais que a ética nos dê sabedoria, o nosso caráter força e a nossa fé beleza, muito do que conseguimos ser depende dela.

No afã de a compreender procuro colocá-la na partitura da vida. Onde ficará a sorte?

Procuro-a em todos os movimentos, na pauta soprada dos metais, no continuum redondo das cordas, no doce ressoar das madeiras e no pontuado da percussão. Mas não a encontro.

Ela está em toda a parte. E em parte alguma. Vive no silêncio. Entre barras e respiros, no coração da vida. No centro no universo.

Mesmo na obra mais perfeita ela é a parte maior, permanência constante, indelével e apócrifa.

É um quarto de tudo na equação simples da vida: todo o amor, toda a liberdade e o que nos cabe em sorte.

Dois vírgula oito.

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