A minha língua

Gosto de te ver sair da tua boca, sempre molhada e quente, como se fosses um chuveiro tropical ou uma corrente. Insisto em te encontrar, sejas riso ou lamento, gritos ou calmaria, ou apenas tempo.

Quero conhecer-te a pontuação. A pausa fusa, semifusa, onde aparafuso as emoções. Onde desfio contratos e desafio canções. Quero que me contes os tratados com que fizeste felizes os namorados e aqueles acordos belicosos onde os políticos se demonstraram mentirosos. Quero que me faças companhia nas noites de luar e nos dias de sol, faça chuva ou tempestade, sejas ré ou haja sol.

Quero mastigar-te as consoantes e abrir-te as vogais com os dentes. Que sejas arte clara e quarto escuro ao mesmo tempo. Que me chames verde, que eu não duro. Que me guardes no ramo até cair maduro, segurando na raiva seiva e no fruto, o futuro.

Quero despir-te as sílabas, uma a uma, som a som, como os noturnos se demoram no piano. Quero sentir-te no ar, a respirar, a sussurrar. A soletrar. Sem saberes ler nem escrever. Que-ro, per-ce-ber-te. Len-ta-men-te. Ao ritmo do volante que se agita no poema sem metade onde a vida tortura a liberdade.

Quero ser teu e tu seres minha. Na mesa do chef e na cantina. Em esquadras clandestinas de polícia onde os amantes se encontram sem ninguém saber, fingindo-se meliantes sem valor ou apenas sujeitos sem os predicados necessários ao amor.

Quero-te língua, na minha palavra. Só músculo e nervo. A cravar ideias no calendário como padrões na terceira, na quinta, e na sétima letras, do abecedário. Quero-te lá. Clara como Cabral. A fingir que há horizonte se não falas. A enganar pontos de fuga e cardeais. A inventar Brasis e carnavais.

Quero-te estrela cadente, ave bucólica, pérfida serpente. Quero-te levar ao cimo de um monte para que me digas que tudo será meu se te adorar: o paraíso, o improviso o céu e o mar.

Quero dedicar-te um teorema como se fosse um soneto, definir-te o algoritmo antes alfabeto. Quero que sejas grande e ao mesmo tempo pequena. Que sejas universal e nunca voltes para casa. Não quero que me encontres com outra namorada.

Gosto de te ver entrar na minha boca, sempre molhada e quente, como se eu fosse o poema e tu a sua semente.

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