Ficção

Faena

Abril 28, 2016

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Combinavam-se de encontros no parque infantil contíguo à praça de touros. Chamavam-lhe carinhosamente uma coisa temível: Matadouro de saudades. Não tinha, é certo, a graça das verónicas, a precisão do estoque ou a volúpia dos pasodobles, mas valia mais que um rabo e as orelhas. 

Debaixo das bétulas e dos jacarandás bem no meio do centro da cidade grande era o mar. A rebentar na espuma de uma imperial fresquinha ou a brincar na areia amarela de um pires de tremoços gordos e mal enxaguados. Está bem, o gás artificial na água era um pecado, mas eu sorvi o meu quinhão carbónico daquela Sagres como se fosse um pescador sedento a desaguar em terra depois de duas semanas bem trainadas de faina. Sobravam douradas de quilo espalhadas na arena. 

Ali era um lugar singular. Para o reconhecer era preciso apontar-lhe com o dedo, como às muitas coisas da cidade imaginária dos Buendía, conhecer a entrada secreta de Brigadoon que nos permite gozar de novo o milagres da primeira descoberta.  

E era ali que estavas sempre, adorável advérbio sem lugar, secasse o inverno a cor púrpura das flores ou o verão nos colasse os pés à calçada da avenida. 

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