Ficção

As time goes by

Fevereiro 20, 2017

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Primeiro é com relógios. Depois com calendários. Depois só com memórias. A seguir já não há padrão. Uma vez aqui outra acolá, menos quando o tempo corre, mais na calmaria. Antes de dormir, ou só quando um sorriso me atira para o passado e tu estás lá. A rir. A desatinar com toda a gente como se te devessem todos atenção e a ti sobrasse compaixão e tempo.

É assim que ganhas qualidades de fantasma. Daqueles a preto e branco das comédias negras de Hollywood. Cantos da boca para cima, nariz empinado, e o beicinho quase cínico de quem tem tempo para atirar play it again man sempre que me sento ao piano, e tu me cantas ao ouvido e eu digo baixinho, pensei que tinha dito para nunca mais tocares essa canção. Mas mesmo assim há um vazio que fica desse mundo que nunca conseguiu existir. Não chegou a ser mais que uma loucura e foi sempre menos que uma aventura. Play it man, for the old times sake. 

Às vezes é uma dor aguda, como aquelas com que se aprendem nos arredores da morte, outras apenas alívio. Nem frontier, nem boundary, nem border. O espaço é imperceptível, leve como nas tragédias anunciadas em que só sentes o vento do carro veloz que não te atropelou por sorte. Há um arrepio. Depois uma memória. Depois esquece-se.

Pois é, nem sempre há Paris.

 – Man, you used to be a much better liar. 

 

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