Ficção

Chiclanera

Abril 10, 2016

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Lá fora impreciso o vento corre frio. Um semi tom de sol, cálido às vezes, nas esquinas resguardadas. A ruas da cidade vão sossegadas, imagino que cheias de confortos empantufados dentro de casa. O dia não convida. Não há barulhos, um motor de carro aqui, outro ali, pontuam a pauta domingueira de pausas breves. Olho pela janela e escolho ficar. Empurro umas palavras contra a página branca, também lentas, a ver o que sai. Já risquei numa dúzia de folhas outras tantas ideias sem grande fulgor. Uma ou outra nem eram más, mas careciam de enquadramentos que a preguiça vetou no mesmo instante. Folheio para trás e num suspiro largo convenço-me que fiz bem.

chiclanera

A dona Maria, que mora sozinha no apartamento do lado ouve, uma vez por mês, música mais alto do que é habitual. Está viuva há mais de uma década e aos domingos, escolhe um pasodoble antigo e roufenho que enche as escadas de passado. Perguntei-lhe uma vez se gostava de toiros, ela respondeu, baixando os olhos, que era para se lembrar das “vacas”. O marido era um aficionado à festa brava. Brava mas fora das arenas da coragem. Fazia-me a vida num inferno, deus me perdoe, dizia ela quando por algum motivo se tocava no assunto. Quando ele faleceu, muito antes de vir morar para aqui, foi numa tarde de domingo como esta ede uma doença súbita que nunca se explicou. Maria chamava-lhe era o dia da Libertação. Eu imaginava o féretro a sair do primeiro esquerdo, com os pés para a frente, desamparando de vez, escada a baixo, a vergonha da simpática septuagenária. Há males que vêm por bem, repetia. Assim, no primeiro domingo de cada mês, todo o prédio sabia que nos acordes soprados de “Chiclanera” e na voz de Manolo Escobar, D. Maria se vingava das más memórias que guardava dos tempos do senhor D. Pedro, que em boa hora Deus havia resgatado da terra dos vivos. Esta faena durava exatamente 3:31. No final, imediatamente após o último compasso da orquestra, que nos pasodobles soa como uma porta a fechar, ecoava por todo o prédio, com a mesma energia que consentimos à lembrança dos atravessam ipirangas, uma última palavra. Olé!

Era o tempo da vingança.

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