Chivery

Pediste-me uma recompensa e eu disse que sim. Afinal a música que me ensinaste era tão boa que podias escolher tudo o que quisesses. “You name it”, disse, deixo-te escolher. Não sei porque de repente começámos a falar em inglês, até parecia coisa de miúdos. Mas há palavras que é melhor dizê-las em inglês, não se canta assim?
“Chivery”, teclaste, “ok?”. “Chivery?”. Fui logo ver o que era mal apareceu a mensagem escrita na tua linha do messenger. São giras estas redundâncias cibernéticas. Abri a pestana ao Senhor Google no sol da praia, um dia destes há mais telemóveis que areia, pensei quando escrevi. “Chivary”. Carreguei em “buscar”… e nada.
Depois decidi falar com o senhor G como toda a gente agora faz. Agora todos lhe falamos como se ele fosse uma pessoa igual a nós. Já ninguém só escreve “Neruda”, ou “Baudelaire” e antes de carregar em procurar, escrevi com a doçura de quem tem o Sr. Google por família, “Qual o significado de Chivary? Mas de novo, nada.
Mudei de idioma. Dear Google “What is Meaning of Chivary”, e ele, transmutado de amigo respondeu “Chivalry”, noun, ” very polite, honest, and kind behavior, especially by men towards women”. Olhei com atenção e descobri a letra a mais. É sempre nos detalhes que o diabo se esconde. Uma letra a mais acaba com qualquer cavalheiro.
E aliviado respondi-te, também na língua de Shakespeare, até para não ficar atrás. “I am afraid I miss the meaning of chivary” e rematei, “mas deve ser qualquer coisa de espetacular”.
Então riste a bandeiras despregadas, não sei como é rir a bandeiras pregadas, mas é menos com certeza e antes que admitisses um erro, eu percebi logo que tinha acontecido uma daquelas coisas muito importantes porque ninguém sabe que estão a acontecer.
Fizeste um compasso de espera, é assim quando o ecrã fica cinzento, até que eu disse “repara que é uma palavra muito bonita”, mas tu puseste a fasquia mais alta, “quando chegares a perceber o verdadeiro significado de “chivery” serás um homem novo”.
Ditas assim, sem se estar à espera, as profecias são sempre murros no estômago. Voltaste a pedir uma recompensa. Estavas carente ou sequiosa. Ainda não sei. Mandei-te o Zero do Lineker, afinal este nosso encontro inesperado tinha todas as cores de um “Midchivary night dream”.
“Shivering”, tremeste depois de ouvir. “Dangerous”, retorqui. Não tinhas medo nem eu. Mas a conversa mudou. “Estou com demasiado tempo livre, desculpa. Saí de casa, peguei nas minhas filhas, no esquilo e na tartaruga e vim embora, há amores que fazem mal”.
O teu silêncio doía-me, não me lembrava de nada polido, honesto, e cavalheiresco para te dizer até que me saiu um: “Sabes o que eu penso? Que não existe maneira certa ou errada, a vida apenas acontece, é o que é”.
Riste e repetiste, “Neruda ou Baudelaire?” e começaste baixinho a trautear uma canção de um velho filme de Chivary, “As sure as days come from moments, Each hour becomes a life’s time, When she’d left, I’d only begun this lullaby”.

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