Ficção

Como olhando a luz

Novembro 20, 2016

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“Como olhando a luz”, também foi num sonho que me chegou.

À volta de uma mesa, eu, com apenas 14 anos, almoçava na companhia dos meus  filhos. Todos crianças.

Vejo de fora. Observo-os com atenção.

Falam entre si do futuro, dizem coisas vagas e luminosas, coisas de miúdos. Nesta altura eu sou um quase fantasma que apenas ouve. Até que, a dada altura, lhe apetece falar.

Peço a palavra.

O último a perceber esta vontade sou eu pequeno. A custo lá me calo, depois de uma cotovelada da minha filha. Há uma cadeira vazia. Todos se entreolham.

Corre no brilho da luz uma ligeira brisa. Começo a dizer. No sorriso geral de uma foto impossível, ficamos a saber que vai começar tudo de novo. Não sabemos o quê. Apenas que já nos tinha acontecido antes. E depois.

Fui lá para me sentir ao pé do mar e ao pé de mim.

Não me lembrava como era enfiar os pés na areia da praia, muito menos no outono avançado de novembro. Esta é a beira-mar da minha infância. Vai longe esse miúdo de calções vermelhos e passeios na marginal. Mas hoje ele voltou. Quando era menino caminhava na areia da mesma maneira que hoje. Tinha a idade dos meus filhos mas o horizonte era o mesmo e os sonhos também.

Tudo se volta a acender. É uma luz. Um volante que se agita. Outro futuro. Tudo volta a acontecer no mesmo lugar de sempre, na concha inverídica deste mar.


São Martinho do Porto, 2016

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