jose manuel diogo luz

Ficção

Diálogos (IV)

Maio 17, 2017

Nunca pensou que fosse tão rápido.

O telefone tinha tocado só uma vez e José de imediato se engasgou com surpresa. Verdadeiramente nem acreditava que alguém lhe respondesse. Eu sou muito rápida quando me interessa, retorquiu do outro lado uma voz de mulher. Mas… e o que lhe interessa? balbuciou ele a medo, Não se preocupe, havemos de descobrir os dois.

José não tinha realizado o que estava a acontecer, neófito, não entendia se era alegria ou pânico aquilo que sentia para lá da tesão que lhe fez mudar do teclado do computador para a tecla verde do whatsapp. Fosse o que fosse era um turbilhão. Depois de uns eternos 15 segundos de silêncio e tremuras lá se formaram duas palavras que soltou a medo Assim de repente? E aquela voz, demorada e doce, apertou-lhe ainda mais o nó em volta da garganta. Sabes tudo o que queres?

Olha que sei poucas coisas. disse desajeitado, Ora aí está algo que temos em comum… e não será só isso. Não será só isso?, balbuciou em transe, Não é um homem de fé? Olhe que a fé opera milagres. E foi pela palavra que se operou o milagre. José, desapertando o nó da gravata, sentou-se no parapeito largo do escritório deixando as pernas esticar-se até o corpo ele ser um esquadro ao longo da janela. Lentamente rodou a cabeça para o vidro e, por cima do crepúsculo, encarou ao longe, do outro lado do rio o Cristo Rei. Foi a primeira vez lhe pareceu que a estátua tinha braços abertos. Respirou fundo e disse sincopadamente Ás vezes sou um radical.

 

  • Olhe que eu sou só banal, simples… comum
  • Deve ser tanto assim como eu sou complexo, único e bastante difícil, disse com ironia
  • Você é fácil…
  • Eu? Mas que sabe você da minha vida?
  • À primeira vista parecias-me fácil – e começou a trata-lo por tu – mas obrigada pela inside information
  • Fácil de …
  • De fácil entretenimento…
  • Fácil de comer? Queres tu dizer
  • Ainda não tenho essas perspectivas… assim de repente
  • Ah bom!… Eu de repente também prefiro pagar. Valham-nos mínimos.
  • Essa é sempre uma hipótese muito honesta.
  • À qual recorro bastante, aliás; as palavras saíam-lhe agora da boca com a mesma convicção de um galã antigo do cinema negro E tu… o que fazes da vida quando não atendes telefones a escritores solitários.
  • Recorres bastante, fingiu indignar-se, resta saber se o fazes por ócio emocional ou por, pura e simplesmente, não te conheceres.
  • Faço o quê?
  • Não és honesto contigo próprio, não assumes para ti quem és, nem o que gostas e o que queres. Só isso… Pagando não há perguntas. Isso é bom.

Parecia que tinham trocado de lugar.

  • Faço-o por duas razões. A primeira, prosaica: porque posso. Segunda, hedonista: por prazer. Mas, Maria, sabe-me infindavelmente a pouco, porque as perguntas são sempre a melhor parte.
  • Esqueceste-te da vaidade, José. Da tua vaidade. Essa é a razão pela qual fazes as perguntas. Porque não se pode ter tudo.
  • Faço muita coisa com vaidade e por vaidade, mas essa não é uma delas
  • Nota-se…
  • Só sou vaidoso… intelectualmente

Maria interrompe com ironia

  • … claramente…
  • Mas nesse campo sou mesmo muito.
  • Não é da vaidade física que falo,… Num mundo com tantas pessoas e com tantos talentos ser vaidoso é… no mínimo infantil
  • Vais depressa, tu…
  • Isso no mínimo mostra desconhecimento…
  • Vai mais devagar… És sempre assim?
  • Quando fodo não.
  • Isso eu tinha de ver… quem é muito argumentativo é sempre má foda.
  • Tinhas de ver… se estivesse em causa a tua apreciação. Mas não está. Foi só uma resposta ao que perguntaste. E má foda nem sei o que é.
  • Eh lá… calminha… ora recapitulemos. Eu perguntei: és sempre assim; e tu despropositadamente, respondes: quando fodo não, má foda nem sei o que é. Que merda de conversa…
  • Não é merda nenhuma, são apenas esclarecimentos ao que tu dizes, só para nós entendermos… percebes?
  • Se não te conhecesse, contido era fácil adivinhar. Uma Psicóloga frustrada ou uma advogada… das boas… chiça!
  • Sou mas é uma Adivinha. Isso sim… São uma frustração estas conversas contigo… se me dissesses qualquer coisa interessante… mas que vida que é que tu me dás…
  • (mudando de assunto) Amanhã podíamos ir jantar fora? Naquele restaurante que te falei que vi no facebook. Podíamos. Se quisesses…
  • Tu não tens maneiras à mesa José. Só no papel e só às vezes. De qualquer forma amanhã não posso, tenho coisas combinadas.
  • Sabes, tens razão. É melhor assim, Não estou para isto, E fica a saber que não é só à mesa que não tenho maneiras!
  • A mim só o papel me interessa, o resto são ensaios teus.
  • Mas porque estás assim, Maria, porquê, que mal te fiz pá, estamos só a conversar… olha, apetecia-me ver o teu rosto sorrir
  • Porquê… achas isso importante agora?
  • Quando se sorri, vê-se melhor o coração
  • Não vejo o interesse que isso possa ter…
  • Ficávamos mais perto, devidamente aconchegados
  • A mim “devidamente” diz-me muito pouco…
  • Irra!.. Espero “mesmo” que a foder não sejas assim
  • Não te irrites… não corremos esse risco. Tu e eu.
  • Bem sei! Só falo pela Humanidade…
  • Entendo e agradeço a preocupação. Por uns momentos pensei que quisesses falar de sexo.
  • Mas … estavas a pensar nisso ?
  • Em sexo ?
  • É que não me parece que gostes…
  • Ainda bem que és muito intuitivo.
  • Eu? Sou quase uma mulher…
  • Mas há diferenças?
  • O quê? Achas que não?
  • Não sei… por isso te pergunto
  • Há matrizes. Há homens que têm um parte de mulher mais forte e mulheres que usam saias, sei lá… agora sendo a igualdade política de Estado é preciso ter cuidado com o género… mas definitivamente há um “feminino” e um…
  • Discordo disso
  • Tu discordas sempre Maria, lembras-te! Sempre. Só a foder é que não!
  • Olha que já concordei contigo… e não foi a foder
  • Pois não, não. Foi “em” foder
  • Também tens tantas opiniões e teorias a foder ?
  • Não – chata – só fodo
  • Nesse caso fico mais descansada por ti
  • Fica, fica… descansada, relaxada, bambeada… humm
  • Que conversa!… mas isso com uma pessoa do teu gabarito até deve ser normal
  • Eu tenho a certezinha que tu queres falar de sexo
  • Não especialmente… uma vez que estou com sono. Mas podemos falar se for tua vontade.
  • Não fodo gajas com sono
  • Lá está…
  • Está?! O que é que está?
  • É que me dás sono. Irritas-me e dás-me sono… Mas também pode ser do dia de trabalho…
  • Como se tu trabalhasses arduamente…
  • Eu?! Eu descansei arduamente… mas tu nem sabes o que isso é.
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From gold

Dezembro 31, 2016 7 0

Comments (1)

  • Agosto 22, 2017 by Meu Lado E

    Meu Lado E

    Uau… adorei! Belo diálogo kinder. E depois?

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