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Aquelas reticências

Abril 12, 2016

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RETICÊNCIAS

Como as bailarinas antecipam o som, elas antecipam o texto, a mensagem e a surpresa. Dançam ao compasso das teclas que, do lado de lá, trazem a imaginação que vive na ponta dos teus dedos. Constroem palavras. São o ponto da voz – “vem por aqui” – e dançam em silêncio.

Antes as reticências significavam o sentido escondido, o que ficava propositadamente por dizer em cada texto. No meio das frases, no fim dos parágrafos. Agora não. Emanciparam-se. São anúncio do que ainda não foi dito. Três pontinhos de ansiedade.

Hoje as reticências estão quietas. Ainda não apareceram por aqui. Estão de folga, ou de greve, ou emigraram. Se calhar procuraram refugio noutro país. É isso! Prefiro acreditar que estão exiladas, refugiadas, que procuram atravessar a nado, ou num sobre-lotado bote de borracha, um oceano de palavras por dizer.

Se eu soubesse rezar pedia aos deuses que as não deixassem naufragar. Diria – “São umas reticências importantes,senhor Deus,são elas que anunciam o futuro, vê lá no que te metes, sem elas vais ter muito mais trabalho”. Quase posso adivinhar a perplexidade divina, sempre habituada a reticências pretéritas, quando confrontada com esta tentativa de usurpação cibernética. “Deixa lá as reticências no fim, porque como sabes, só Eu sei o que vai acontecer”.

Deve ser…

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