Ficção

Eureka

Junho 16, 2016

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Saí à rua só para te ver.
Apesar de ser junho, no hemisfério norte haver muita luz e normalmente fazer calor, naquela manhã chovia como se fosse abril em Londres. 

O sol, longe de tão alto, calcava as nuvens negras com tanta força que a água descia célere e certinha como uma gigantesca janela eletrica de automóvel. 
Podia ter voltado para trás, que é o que seria razoável. Calçar as pantufas, desarrumar a estante, esperar que passasse. Mas não dava, era enorme aquela urgência e fui.  
Faço-me à estrada, atiro-me aos semáforos da avenida como se fossem as tuas memórias incendiárias. Atiço-lhes lumes e fósforos e pensamentos ígneos, desejo fogo e labaredas. Passo a correr no amarelo. 
Hei-de esbarrar em ti se continuar sempre em frente. Tu não me ganhas em probabilidades impossíveis. Nem neste ir e vir de enganos em que queres reduzir o tempo à tua alínea. 
 Não chegas para mim. Não dás. Pode até ser que não haja rota que te encontre, ou linha de interseção, ou plano de corte. Podes ser até transparente como uma medusa ou geometria indescritível ou pura metafísica que não escapas. 
 Podes ser plano esquivo, reta de frente, linha de terra. Que não tens fuga.
Podes não ser topo nem ter nível e a minha pax será sempre nula. Assíncrona. Áspera, Ausente. 
Serás até o que tu quiseres. Esconder-te até noutro espaço tempo que ainda ninguém postulou ou noutro beco qualquer.  
Podes gritar aos céus quantas Eurekas tu quiseres que nem que se empurre a vontade até doer hei-de chegar. 

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