Falta-me de ti

  • Está reservado para o chapeleiro doido, disse o rato.

  • Chegam muito tarde os senhores a este brinde. Já foi ontem, ontem, ooonnnteeeemm. Miauuuur… Hoje já passa muito da hora esperada.

O gato apareceu como um rato abocanhado pelo papo, num esgar de Asgard, esse sindrome temível que ainda não afetou ninguém mas quando começar vai-ser-o-fim sabemos todos.

Comecou assim o primeiro sonho de que me lembro em muitos anos E foi só depois de te conhecer .

Realmente não seria disparate nenhum que existisse um marcador de sonhos, assim como aqueles carimbos de discoteca onde a tinta seca logo e não sai durante dias.

Depois de acordar já carimbado, fiquei sem saber o que pensar quando, a meio da tarde, o Gabriel desceu à terra das memórias póstumas – do Cubas, do Hélder, do Diogo, do Assis – e eu a ver se o chapeleiro se ia embora antes que a sandice me apanhasse distraído noutro qualquer.

É impossível morar na pauta da loucura, mas também é o único lugar que vale a pena.

Por isso o sono me roubou o fim do texto ao chapeiro e ao gato por causa de dar horas com as mãos largas de um banqueiro anarquista.

No meu sonho voavamos todos dentro de um relógio de cuco branco cheio de janelas de mansarda. No centro havia uma mesa com comidas chiques de supermercado caro onde um conjunto de anjos seminus, só vestidos de shorts e de asas, jogavam a sorte ao dominó.

Depois alguém trouxe um bolo que não se deixava fatiar e os anjos circunstantes emigraram todos para Bamako.

Alguns falavam alto e também eram bonitos, mas principalmente lembro-me de ti.

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