Harmatão

Todos os dias àquela hora o vendedor de tâmaras cego estava exatamente no centro da elipse imaginaria que descrevia com perfeição a metade inexistente do arco maior da Porta do Sol. Nessa tarde precisa em que o recordo o céu era de chumbo, a luz apenas uma miragem e a praça varrida pelo vento Harmatão, mais deserta que o coração do Sael.
Quando mais ninguém se atrevia a por pé fora de casa, ele lá estava. Hirto quase de mármore, desafiando o “doutor”, dia após dia, até que o Siroco trouxesse de volta ao crescente de prata que decorava o ático cravado na pedra, um raio de lol.

A voz de Ibraim, se aquele lamento quase surdo e monocórdico fosse realmente humano, era maior que a tempestade.

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