Ficção

Mãe

Maio 1, 2016

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O tempo é inexorável. Um fantástico filho da puta. “Tudo nos dá e tudo nos tira”, dizias. Mas não há outra guerra que valha a pena. Desafiá-lo é um duelo de morte sempre perdido a que não se pode escapar. Mas será mesmo? Oh inimigo definitivo! Como hei-de lidar contigo? Que te faço? Que te digo? Como te vivo.

Olho os dias de frente e sei que só há presente. É tão óbvio que passado e futuro são uma invenção tua, dá até vontade de rir. Pensas que ganhas sempre não é?  Mas ouve com atenção: hoje estás com azar. Daqui não levas nada. Por mais artimanhas que inventes, lances de mágica ou passos de dança com que te apresentes, tenho este recado para ti: desta vez vais perder.

Tenho aqui bem guardados, onde não te digo, o perfeito antídoto, remédio santo, mágico unguento, que te vão por no sítio antes que possas pestanejar. Não pestanejas? Também ninguém te vai deixar entrar. Sem passado ficas perdido em alto mar. Terra à vista? Não.

Sento-me confortavelmente ao sol da primavera e, na luz clara de maio, neste navio invisível feito apenas de memórias, começo a cantar. Murmuro, sussurro, sorrio baixinho, e fecho os olhos até que a corrente me afaste da tua rota. As correntes oceânicas nunca falham. E tu não mandas nelas.

Nao, não, não. Não faças batota. Não inventes. Não te debatas e segue o teu caminho. Aqui não há passado já te disse, só presente. E do futuro só quero o teu esquecimento.

– Não percebes?

– Ótimo!

(Se milagres existem esta é uma boa altura para se revelarem)


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