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Memórias de um beijo

Agosto 2, 2017

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Foi na semana passada, numa viagem de barco, à bolina da apresentação de um  Festival  de Verão que, levantando ferro a bordo do veleiro Príncipe Perfeito, a câmara do meu telefone, umas horas mais tarde, havia de registar uma imagem. Os músicos do(s) Trovante, João Gil, Manuel Faria e Luís Represas olhavam para o mar.

Em 1987, Terra Firme, o novo álbum da banda estreava nos escaparates. É aquele disco da canção feita com o poema da Florbela Espanca, o “Perdidamente” – uma das músicas que mais passou no “éter” português em toda a história da rádio – e também de muitas outras que estão na memória de todos os que gostam de música portuguesa. Como 125 Azul, Memória de um beijo, Um caso mais, Fiz-me à cidade…

A capa do disco – eram em vinil naquela altura – era feita de uma única fotografia. No meio do Tejo sentados num banco de areia, com a Basílica da Estrela por trás, os músicos do Trovante – o João, o Manuel e o Luís, mas também o José Martins, o Fernando Júdice, o Artur Costa e o José Salgueiro, davam costas à cidade e olhavam para o mar virando costas à Terra Firme. Foi exatamente há 30 anos.

O Príncipe Perfeito saiu impante do cais de Alcântara pelas nove da manhã num dia de sol batido. Entrámos todos para aquela viagem-festa ao som dos êxitos dos artistas que fazem o cartaz do Sol da Caparica deste ano.

Na companhia dos, HMB, do Regula e do Bonga, da Mafalda Veiga e da Teresa Salgueiro, do Criolo e dos três Trovante, fomos todos, por umas horas, marujos da mesma navegação.

Em direção ao mar, de Lisboa à Costa e depois voltar, sendo o vento bom e as máquinas prontas, são pelo menos 4 horas de expedição. Dá para muita conversa e reinação. No tombadilho um DJ desfiava os êxitos que hão-de rolar no palco do festival. No convés, artistas e convidados, convivas de bússola e sextante, trocavam graças e brindes à brisa incerta do fim de julho.

A caminho de ir buscar outro daqueles moscatéis de Setúbal bem gelados, a música mudou. De repente a voz cristalina do Luís Represas, encheu a linha horizonte com um clamor antigo: “Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja, Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!”.

É então que, à procura da proa, os meus olhos esbarram nesta fotografia. Como que a cumprir um destino, os Trovante olhavam de novo o mar. Como se tivessem achado de novo aquela remota ilha de areia onde, muito tempo antes, a juventude lhes mostrara as memórias de um beijo.

Foi há 30 anos. Mas podia ser amanhã.

 

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