Ficção

Metamorgato

Abril 24, 2016

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Tu. Nem uma palavra nem um suspiro nem um som. Nada. É como se tivesses desaparecido no céu depois da taça de gelatina. Imaginas-te sem saber bem porquê, de saia comprida, como naquelas fotos sépia de sufragista, a andar, vigorosa, cinzenta escura, por cima da calçada, passos largos; sou uma cientista qualitativa, olha que não há disso, não entendo a escravatura positiva das contagens, ainda vais precisar um dia de saber contar, só preciso de um resultado para escrever o caso tiram-se as conclusões todas porque agora não há tempo, mas e se erras, isto assim acaba já não quero saber; sempre a apregoares distância à substância dos números, como se ela se medisse em metáforas em vez de metros. Tinhas pressa mas precisavas de ficar ali.
A tua alma é agora como um felino branco por cima do teu olhar, quieto, inamovível, à espreita. Mede fita puxa empurra acotovela desalma todo espaço à tua volta. E a praça vácua. Mais pesada que a tua saia comprida de heroína antiga a liderar a excursão ao norte. Como se ainda ninguém tivesse atravessado o Douro este ano, esta década, nunca. Precisas de fugir, de sair dali, de esganar o espaço e o tempo e não fosse de sol o dia havias de te lembrar aquela divisão enlameada de franceses a chegar esfarrapada ignorante derrotada ao largo da Batalha, mortos de sede, sem ninguém conseguir perceber que todos se rendiam de medo ao desespero da tua fome. Pensas que só precisas de um, mas vão trazer-tos todos, um por um e depois os outros, a pedir-te meças, a desabarem sobre ti reclamações póstumas sobre a tua teimosia kantiana, todos condenados às galés mortos vivos e fantasmas de lobisomem. Bruxos. A gritar-te ao ouvido. Vais ver coisas impossíveis.
Sonhas que sobes o Douro num vapor, à proa, a levares com o vento afunilado pelas margens dos socalcos do vinho nessas bochechas rosadas de heroína, mas estás apenas sentada na cadeira da esplanada, desenhada pelo siza ou por um ajudante qualquer desses pouco recomendáveis jeitosos de mãos e maleáveis de espinha mas que são capazes de trocar o que amam pelo que pelo odeiam por uma boa escola. À tua volta as gaivotas são de verdade, gritam como as vacas africanas daquele romance francês de que te falei, mas tu só te vês por entre os rios a escolher afluentes; só importa um, só preciso de um, impacientas-te e segues, fechas os olhos e segues, sem sair do lugar, rilhando as solas dos sapatos na calçada de pedra, oh captain, my captain, que da cadeira do arquiteto também se vê o mar; scooner-aaahh-iiiiii fifty man in a dead man’s chest, também se sente o saque e o sangue das conquistas na tua aura. Só preciso de um.
Chega um empregado de laçarote branco, camisa preta, dois triângulos isósceles deitados na simetria do vértice longo, horizontais apontados um ao outro separados apenas por uma ridícula bolinha no meio, devia ser também do arquiteto esse laço, ou mesmo do ajudante que os arquitetos também têm de se contentar com outros compassos e tabuleiros mais pequenos em dias de crise, deseja mais alguma coisa, deseja mais alguma coisa repetia, mas tu só ouvias o sol a rasgar-te o rosto, a rebentar-te a alma e os piratas de entre os rios a gritarem, só um.
Toca-te no ombro, a senhora está bem, levantas até ele o olhar como se não acordasses e respondes, diga, vamos fechar já se pôs o sol está a ficar frio a senhora está bem; de quem é o gato, é seu tem de o levar consigo. Aquele, perguntas apontando para o céu, foi a menina que o trouxe, não sabia que era tão grande, mas só preciso de um.

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