Ficção

No coração de sexta feira à noite 

Maio 20, 2016

Estou aqui sentado num sofá da sala a interrogar-me. Aponto a luz torcionária ao centro da testa e pergunto alto, grito mudo a ensurdecer por dentro.
– Mas porquê?
Em que demónios me esqueço do sentido último das coisas e me atento e atormento em desvario?
 Tanto que já só quero roer a linha de terra, vender a guerra aos nativos, e dançar. Dançar nos astros, com zoroastros e alquimistas, vedetas da bola, apresentadores de TV e neo fascistas. Só não quero dançar para ti na ponta do teclado como na prancha dos corsários.

– Mas porque que me fazes sofrer?

Fico entorpecido, disléxico, atónito, afónico, tudo por dentro. Quero adormecer-me nos meus braços de embalar, ser colo de de mim, cálice de nada. Ser outra vez a página em branco que odeio – eu e o mundo! Mais nada de permeio.

– Dói-me outra vez ser barco negro, bote náufrago, ilha deserta de mim.

Olho lá fora a lua quase cheia, ou ela olha para mim. Fecho os olhos e imagino-a noutra noite clara, num agosto da minha infância, onde só havia luz e espaço. Era num bosque simultaneamente nítido e sem contraste, plano, desdimensional, quase impossível, tons de pastel como naquela balada do mar salgado.
Sinto nessa ideia longínqua uma saudade, e uma certa vontade de ensaiar o que sintia então agora, aqui, neste tempo do novo da minha sala.

Um imperfeito tic tac – ponto, pêndulo, ponto, traço,pêndulo – codigo simples enigmático e ainda assim impassível, mas quase tinta invisível – traço, pêndulo, traço, pêndulo, ponto.. O tempo mergulha e não há fundo.

Pode até ser esta a noite sem fim.

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