O senhor Alva Luz

Quando subia ao barco para rumar ao outro lado, a viagem sempre lhe parecia uma eternidade. Durava menos de cinco minutos, mas para ele, cada travessia tinha o tamanho de uma vida inteira.
Alva Luz era o piloto do Tibete, o mais pequeno dos botes que transumavam o canal da praia de Cabanas, logo que os número de veraneantes justificava a carreira. Como muitos pescadores aposentados, que juntavam o rendimento da travessia à reforma nos meses de verão, Alva dedicava-se àquele infinito ir e vir estival há muitas décadas. Ninguém mais tinha memória de quando ele tinha aparecido.
Alva, como era conhecido na aldeia, era o homem mais antigo a segurar o leme daquelas embarcações sem idade definida, adaptadas agora ao transporte dos turistas. Distinguia-se facilmente dos restantes pilotos porque não convidava ninguém a entrar no barco. Não tinha pressa, não dizia palavra, mas era sempre o seu barco o que mais depressa se enchia.
Sentado na popa do Tibete, imóvel e em silêncio, aguardava que a pequena embarcação ficasse cheia e, mal o último transeunte se sentava, sem silabar um ai, erguia-se de sopetão e, como se recebesse uma ordem vinda do além, fazia continência à maneira dos militares do antigamente. Permanecia imóvel na vertical fitando o infinito naquele horizonte de vistas curtas até que, um segundo passado, o ruído do motor anunciava que a viagem tinha começado.
Menos de cinco minutos depois, já o marinheiro mudo repetia o ritual, desta vez no ancoradouro da ilha. Terminada a manobra de acostagem, mal o calado tocava o cais, saudava novamente os seus fantasmas, repetia a continência e sentava-se.
Ao contrário dos outros pilotos o sr. Luz não saía para amarrar o barco ao poste de amarração. Em cada um dos lados da viagem eram sempre duas mulheres, jovens e bonitas a retirar a corda do Tibete e a comandar a acostagem.
A cada ano, as mulheres da Luz, como a aldeia lhes chamava, apareciam em Cabanas, ano após ano, irrepreensivelmente, no derradeiro dia antes do solstício de junho.
Nessa noite, por mais vivos que ficassem de atalaia a todos os caminhos que iam dar à porta do número 1 da beco Vasco da Gama, onde. Alva Luz sempre morou desde chegou à terra, nunca ninguém conseguiu perceber como elas chegavam.

Quando a história se tornou conhecida vieram especialistas de todo o mundo tentar perceber o que acontecia, coisa que até hoje ninguém conseguiu.
No primeiro dia de verão, à hora mais matutina do hemisfério, com a certeza infalível dos metrónomos, duas mulheres jovens, seguramente com menos de 30 anos, irrepreensivelmente belas e elegantes, saiam à rua e em passo firme dirigindo-se ao ancoradouro, escolhendo o caminho mais curto,como se sempre tivessem vivido lá.
Testavam a força das novas cordas que traziam e depois sentavam-se, uma ao lado da outra, esperando serenamente que ele chegasse.
O povo ficava olhando de longe, preenchendo o caminho, acotovelando-se nas ruas, apinhando janelas, varandas e terraços, à espera que Alva Luz as fosse conhecer.
No instante anterior ao primeiro sopro do Harmatão a porta abria-se de rompante ele saía. Sem hesitação, num passo largo e constante ia ao encontro das duas mulheres.Era a única vez que falava.

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