Ficção

Orfanário

Agosto 31, 2016

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Não era senão sombra o que esmagava.
Não eras tu, não era o sol, não era nada.
Era um recado, uma mensagem, um telegrama gatafunhado, aerogramas difusos, mensagens de outra dimensão. Não eram imperceptíveis, nem impossíveis. Apenas indecifráveis .
Tombei o olhar para os meus pés luminosos ao fresco quente do meio de agosto, batidos, vergado pelo sol oblíquo, tornado claro, quase queimado, pela vontade de te ver.
A única coisa que eu queria era um sorriso com área suficiente para lá plantar um beijo.
A única coisa que trazias era um buraco vácuo, um orfanário.
Fui-me dali embora sem te dizer que tinha ido ao engano. Levei-te de carro balbuciando parvoíces nas intermitências dos semáforos.
Ias comigo ao lado mas eu já só era Uber, já só era carro.
Entretive-me a contar segundos, verdes, amarelos, vermelhos. Cores de bandeiras passadas, de lugares de que já não havia nem memória.
O sol entretanto subia e dava febre à estrada.
Foram precisos apenas uns minutos para cegar.
Ao pino do meio dia, na nula sombra vertical, só havia luz. Clara e sem defeitos. Imaculada.
Foi então que percebi que não já havia nada.

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