Se, outra vez, o teu olhar

Não me lembro de ti assim, tão bonita e jovem, mãe. Eu era apenas o teu novelo e a minha vida estava ainda toda por desenrolar.
Não me lembro do meu corpo no teu colo nem da força delicada das tuas mãos amparo, pilar indispensável ao meu sustento vertical. Ainda eu não sabia de mim e já eras tudo. Força, inspiração e luz.
Faz hoje muitos anos que nasceste, oitenta e dois, e o Deus em que sempre acreditaste já te levou para junto dele ou para outro sítio qualquer em que os deuses guardam as almas boas que têm fé.
Viver na tua ausência tem sido difícil, é muito estranho os números do teu telefone não terem rede no céu.

Querida mãe Piedade, as coisas têm andado bem. O pai está cheio de saúde e lembra-se de ti a toda a hora, eu e o mano acreditamos que ele tem o teu número novo e não o dá a ninguém. Deves saber mais do que nós.
Os teus netos estão lindos e crescidos. O Diogo é o melhor aluno da turma e vai este ano para a universidade. É tão inteligente e responsável que só podia ser teu neto. A Carolina manda em todos lá em casa – onde terá ela ido buscar o génio, a força e o sentido de humor? Pois.
O João também vai bem. Vive junto do pai e é uma tranquilidade para todos nós. Claro que continua com as coisas dele, a patinar entre o amor e fúria e a acreditar num mundo que às vezes não existe, nem na cabeça dele.
Eu cá ando, a ler a escrever, a correr mundo atrás do tempo como se não houvesse amanhã. Como me ensinaste. Quero sempre dizer-te muitas coisas, ouvir a tua opinião, mas nem sempre calha. De vez em quando acalmo a correria e paro. Penso que são tão rápidos os dias da nossa vida. E tão poucos…
Por exemplo acontece-me ficar a pensar em coisas do passado e imaginar que ainda não aconteceram. Que fico na ânsia do teu olhar, à espera do teu sorriso, a querer que me puxes pra ti, me levantes e me segures nas mãos enquanto não aprendo a andar.
– Achas que podemos tirar outra vez esta fotografia?

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