Pax mínima

Era à noite que doia mais.

Aquela paz sem dono instalava-se no coração vazio, como no norte, em novembro, o nevoeiro cansado se senta sobre a curva do rio para apenas se voltar a levantar na primavera.

Quase lhe sabia bem aquela paz triste, encolhida e exangue, à procura de um lugar vago perto do borralho quente, onde apenas se pudesse acomodar a um canto e ninguém a visse lamber as feridas.

Apenas quase, mas sem saber. Porque não era degustação, era fuga. E não era conforto, era morte. Porque não era calma, era cansaço e não era esperança nem desespero; era apenas o que se seguia. O que vinha a seguir.

Não procurava sentidos místicos para o silêncio solene da língua raspando contra a dor. Nem remeniscencias de felicidades antepassadas. Apenas queria lá estar sem estar. Ser sem ser.

Dormiste. Acordaste. Não te lembras do que talvez tenhas sonhado. Só consegues agradecer, numa oração mínima, o facto consumado à tua revelia que é ainda estares aqui.

Há essa coisa que não queres nomear, que se perde todos dias para sempre na máquina do tempo e todos os dias volta para te lembrar tudo o que já não há.

Como a manhã fria e húmida do primeiro dia de chuva depois de muitos dias de sol.

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