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Plano (secreto) para salvar Veneza

Março 30, 2016

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Há muitos anos li um um plano poema para salvar uma cidade que se afundava.
Uma cidade que se afunda a olhos vistos faz com que esses olhos se levantem, se engrandeçam e sempre flutuem; porque crescer sobre as águas tem a maravilha dos milagres. Era assim num poema ouvido muito dantes, quando não tínhamos estado em Veneza, mas, mais do que nunca precisávamos de milagres (de preferência flutuantes) a cada decisão dos nossos labirintos.
Eles existiam, estavam todos lá. Em cada esquina líquida, em cada ancoradouro do prazer.
Mesmo que as cidades não precisem de ser salvas, ter um plano para as salvar é uma obrigação.
Porque só o plano importa. E o riso.



PLANO PARA SALVAR VENEZA (quase)

(de Jorge Silva Braga)

“Todos os anos o Adriático cresce alguns milímetros
sobre Veneza, o século vinte ameaçado pelas águas.

O que é que se pode esperar de um século que foi cons-
truído sobre estacas?

A melhor maneira de conhecer o meu século é de gôndola.

Cada vez mais se apodera de mim a convicção de que
a tua salvação passa pela salvação de Veneza (se é que
não são uma e a mesma coisa).

A não ser que se tomem as devidas providências, dentro
em breve será celebrada na catedral de S. Marcos a
primeira missa submarina para cardumes de peixes
boquiabertos.

Antes disso porém o leão alado baterá as asas e regressará
de novo a Tiro.

Calma! Não há razão para entrarem em pânico. Veneza
não será destruída pelas águas mas sim pelo fogo.

Eu tenho um plano concreto para salvar Veneza. O que
me parece é que ninguém está disposto a colaborar
comigo. Estou a ser alvo de um complot e isto não é
paranóia minha. Ainda ontem os seres vermelhos e
azuis que vivem no sótão me confirmaram o facto.

Eu sou o condottiere Bartolomeo de Souza. Hoje apeei-me
do meu cavalo e passei anonimamente pela minha Sere-
níssima República.

Quando é que a Ponte del Paradiso será de novo aberta
ao tráfego?

Aproximam-se épocas de grande religiosidade. Para
me preparar vou cultivando religiosamente a cera nos
ouvidos.

Prepara-se um século barbudo e de olhos claros.
Na altura da fuga vestia umas calças de bombasina
lilás, um blusão negro e um lenço branco ao pescoço.
Fugiu da História porque a História era demasiado
pequena para ele.

Testemunhas oculares reconheceram-no quando tomava
um vaporetto perto de Santa Rute della Salutte

Hoje descobri que era uma reincarnação de um doge.
Voltei a Veneza e ainda não desisti de recuperar o meu
palácio nas margens do grande canal a uma colónia de
ratos.

Eu sou a má consciência do meu século. Tenho a cabeça
cheia de ratos e não consigo ver-me livre deles. Nenhum
raticida (o trigo roxo inclusive) se revelou ainda eficaz.

Todas as pessoas deixam uma marca indelével no
século por onde passam, uma pegada na areia ou o
nome escrito em letras de oiro no pedestal de estátuas.
A única marca que quero deixar é uma pequena mor-
dedura atrás da orelha.

Sentei-me numa esplanada nas margens do Grande
Canal… A meus pés corria agora um extenso caudal de
coca cola.

Jorge de Sousa Braga (quase)

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