Primeira vez

Na primeira vez que fomos juntos à praia disse-te que ia ler em voz alta sem te perguntar se me querias ouvir. Agarrei no livro da escritora Argentina que lia nessa semana de férias e emprestei ao barulho do mar e ao soprar do vento o som da minha voz.

Pareceu-me que te dava uma ordem, pensei mais à frente, no meio da leitura, e imediatamente me prometi que não leria mais que aquele capítulo. Fiquei sem saber se te devia dizer logo alguma coisa e por isso continuei.

Não sei se me prestavas atenção ou sequer se percebias bem o que eu leia porque às vezes, quando as sílabas átonas coincidiam com o desembrulhar das ondas nem eu me conseguia escutar bem.

Maria GaínzaComecei a ler imediatamente, sem aviso prévio, e sem o cuidado de voltar ao início, apenas uma pagina atrás, para que percebesses melhor. Lia um dos contos que compunham o Nervo Ótico.

Era assim que se chamava o livro de memórias e pinturas em que María Gainza falava de um mundo inventado através das obras que os artistas deixavam, mais ou menos abandonadas quando visitavam Buenos Aires.

Demorei uns 15 minutos a chegar ao fim daquela história. Não me lembro do título nem do enredo. Sei que era sobre um pintor japonês que ia perdendo o talento ao longo da vida e uma amiga da autora que por mais que o procurasse nunca o encontrou. Era uma espécie de charada em curvas às vezes concorrentes em que várias narrativas lá se encontravam, como danças improváveis, quase como se fosse por acaso. Era bom.

No fim falamos um pouco sobre aquilo com a mesma tranquilidade que sempre me transmitias e que nunca soube se era só para mim.

Pegaste no livro e disseste. “Escreve-se uma coisa para contar outra”. Eu sorri, mas logo pensei que comigo isso nunca acontecia. Escrevia sempre para contar o que queria e pensava que outra forma mem valia a pena perder tempo.


O Nervo Ótico (D. Quixote, 168 págs., €14,90) é o primeiro romance de María Gainza, argentina nascida em 1975, em Buenos Aires, que trabalhou como crítica de arte para publicações como o The New York Times, ArtNews e Artforum.

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