Ficção

Sai!

Maio 10, 2016

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Não me amedronta sair de casa mas tenho medo de não conseguir voltar. Lá fora é sempre a mesma coisa porque nada muda, nem tu nem o mar à tua volta nem as viagens feitas de silêncios em vez de bilhetes de avião e saudades. Trazias na palma da mão  uma lembrancinha, uma insignificância qualquer, só para poder continuar a pensar que pensas em mim. Sei lá. Estava mau tempo na ilha. As ilhas andam assim. A inventar temporais e ventanias. Será que aterraste em segurança.

Olho para a porta da rua com a mesma  desconfiança que em criança tinha dos senhores maus que marchavam em parada militar, avenida abaixo; via-os armado com o meu martelo de brincar, assim de soslaio, pela fresta da persiana verde de madeira. Iam tão certinhos no seu compasso militar que só me apetecia atirar a destroçar.

É branca, tem uns números do lado de dentro, também pelo lado de dentro, como se para sair de casa fosse preciso saber o número de polícia, como se não saísse mas na verdade entrasse noutro sítio qualquer, outra casa, outro ninho, outro ventre, outro lugar. Portal, limbo, terra de ninguém. A porta de ninguém.

Estava ali à minha frente fechado do lado de dentro da casa e só me apetecia ter coragem para sair e depois não ter de voltar a entrar. Os demónios estão todos do lado de cá e os anjos lá fora. Vai, pá, corre, meu, atina, sai. Não te feches aqui dentro que eles dão-te cabo do juízo. Agora não adianta pores-te a chorar, e aqui não consegues, secam lágrimas esses demónios, cerram fileiras por baixo das tuas pálpebras, abraçadinhos, cordão desumano, malvados mafarricos. Sape gato. Bora. Xôô. É só um passo. Sai. Desopila.

 

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