Ficção

Saudade

Janeiro 23, 2017

Etiquetas:, ,

Voltei a vestir-me de branco.

Tinha encontrado o João na semana anterior. Andava, como sempre à beira de memórias inacabadas. Ele e elas, ali os dois, mesmo à mão de semear.

– Olha que as mãos que não sabem colher têm sempre preconceitos com o passado. Não é? –  disseste com um sorriso de soslaio meio marfim, meio sobrancelha, íris ao canto do olho; e eu passei por cima da tua verdade fácil como um físico de partículas se ri de Newton e dos seus binómios.

– Não te ponhas com conversas de engenheiro, ameaçaste, temos de ir a outro lado, temos de falar mais, de nos encontrar-mos mais, que a vida, só de década em década, parece mais curta.

Eu até tinha ido à estante a teu pedido. E olha que não me apeteceu nada, que já nem te lembravas do único díptico com três folhas que tinhas feito nessa vida anterior em que nos conhecemos e tu ainda não tinhas a certeza do que ias ser. Encontrei lá o texto que te escrevi. Num livrinho miúdo cheio de  letras grandes, armado em crescido.

Vesti-me de branco no dia em que me despi de ti.

Aquilo até era um bocadinho pretensioso, mas bem intencionado. Eu ainda era um anjo de coro que quando corava de vergonha só ficava branquinho mais escuro. O resto ainda haveria de chegar. Ai se nós soubéssemos escrever livrinhos pequenos com letras grandes sem rubores angelicais. Nunca haveríamos de nos ter separado.

– Porque  queres que me vista de branco outra vez?  Será que ainda sei onde está aquela fantasia de bêbado que me aconselhas-te na montanha. Foi há muito tempo sabes? Tudo era antes. A atmosfera não se respirava, os Fenícios ainda não tinham inventado a moeda e tu só fazias contrabando de bens materiais. Eras tão parvinho.

– Ainda nunca descemos uma montanha juntos. Se calhar estava na hora, João. Mas vamos fazê-lo agora, enquanto ainda sabemos que tudo se pode começar, e como tudo é tão branco ao princípio. Mesmo naquelas vezes em que a alma vai mais abandonada que as memórias do passado.

 

5
5 likes

Your email address will not be published.