Ficção

Saudades do futuro (II)

Junho 9, 2014

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Porque queres que tenha saudades do futuro?

Esta é uma cidade cheia de silêncios ruidosos e passageiros sedentários. Olhares lânguidos e surdos. Luzes baças que quase sempre são também esquivas. Coimbra é feita de viagens impossíveis ao passado, mergulhos desesperados no futuro e maremotos sem epicentro. Olhando em volta só se encontram amores impossíveis.

(…)Eram sempre as mesmas contradições que ele via quando pousava os olhos na enguia luminosa que o rio projetava no sol da meia tarde. Era ali que estava tudo, e “tudo”, era um sentimento incessante, como se “tudo” não pudesse ser mais que as sombras desenhadas na aba de uma história antiga. Tudo passado, tudo saudades, tudo imaterial. O futuro vinha sem projeto, sem estratégia, sem time line.

“Navegar é preciso…” – cantava ele em surdina, no sotaque lusitano de um Caetano que a Queima das Fitas lhe servira em caloiro– “….viver não é preciso”. Cabia lá o mundo inteiro. O céu, a linha do horizonte e as horas. Coimbra era a terra inteira. Era no centro do mundo.

Olha Mónica – disse-lhe ele – vesti esta capa preta, toda preta, e olhas para mim como se eu fosse uma andorinha enfurecida. O sol bate sempre a pino na Cabra da Universidade – como se não houvessem nuvens, nem chuva, nem inverno, nem hora “h”, nem dia “d”, nem ponto “g”, nem amanhã, nem nada. Só gritos de revolta e ondas de prazer – “Galileu Galilei”, gritou feliz, ou outra coisa qualquer, debaixo do pano da tradição.

Ela anuía em transe, vergada pelo manto negro e viril feito daquele destino desejado – É sim Pedro, já vejo os anjos a dançar – e escorregava pela relva suja da primavera como se fosse virgem em sagitário – Dá-me um beijo – E ele deu.

Levantaram-se da terra, levantados do chão. Era noite e quarta feira. Chovia uma água limpa. Escureceu.

Como te chamas perguntou – sou a Rosa e sou o céu. E tudo o tempo levou.(…)

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