Sprookjes

“Sozinho no cais deserto a esta manhã de verão olho para o lado da barra, olho para o indefinido, olho e contenta-me ver”, pensava o Homem de Estanho, contemplando o longe e a distância naquela praia fria. Seria o lugar do seu destino? Finalmente encontraria paz? 

Fora naquela praia do Norte que séculos antes, os Poulders tinham inventado uma capital envergonhada para se esconderem dos corsários ingleses, das tulipas negras e das canções de Brel, mas onde como sempre acontece longe do Equador, todos terminaram por se amigar, e amar, entre canções e massacres, até aos nossos dias.

Ia nestes pensamentos quando começou a chover. 
Em Scheveningen a chuva caía sempre como se fosse impossível. Não se lhe aplicava a lei da gravidade pois era fina como a memória das catástrofes e mais vermelha que o sangue jovem das donzelas em perigo. Volátil como o éter. Etérea como o pó de estrelas. Horizontal como a maresia. 

Se Podes olhar vê. Se podes ver repara.

A memória metálica de Pessoa ecoava-lhe nos ouvidos que Tom lhe tinha dado à nascença. Tapava-os com as mãos para não ouvir.

Há muito tempo que os comboios tinham deixado de aportar ao Sena, derrubados por cavalos de ferro e encostados à margem pelo calado mudo dos bateaux mouche. Era terra de ninguém e onde a arte nova não sonhava planisférios. Era o passado.

No metrónomo anunciado de Álvaro de Campos, o senhor de Estanho pensava na imortalidade enquanto se acostumava àquela posição. Procurava um gesto que o distinguisse daquele outro pensador de barro a quem o senhor Auguste tinha entregue toda a arte de pensar antes que uma guerra o levasse para sempre de Orsay.

O senhor Estanho estava cansado. Já não se lembrava há quanto tempo corria. Quando finalmente se sentou fatigado dos caminhos e da lonjura do mar, pousou os cotovelos nas pernas, agarrou com as mãos a cabeça e chorou. 

Nunca, desde que fora cinzelado pelo seu criador Otterness, na oficina recôndita de Gowanus em Brooklyn, Nova Iorque, se sentira assim. Todo o seu corpo de metal rebentava em dores e angústias, tão humanas, que se soubesse, diria que o nervo e carne lhe nasciam. E aí o senhor de Estanho quebrou. 

Pesavam-lhe os olhos e então o Gigante em Lágrimas, sem conseguir levantar o olhar, sentiu de novo o longínquo grito dos piratas. Sentado no cais deserto a esta manhã de verão, olho para o lado da barra, olho para o indefinido… Sco-o-o-n-e-e-e-r   a-a-i-i-i-i…

Não se via nada. Depois, a maresia terçou geometrias com a chuva e, como num filme antigo, o céu e a terra mudaram de lugar. Lentamente baixou as mãos e levantou a cabeça para o gesto seguinte, aquele que ninguém podia antecipar. Mas um som intenso atingiu-o de rompante e atirou-o de novo para baixo. E ali ficou para sempre a decorar a memória de holocaustos e inventar contos de fadas.

(este texto deve só pode ser lido em voz alta, muito lentamente ao som Close Cover de Wim Mertens repetindo-se até ao infinito)