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Suave milagre

Março 15, 2017

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Poucas coisas haverá mais impressionantes do que ver um milagre acontecer. Mas, claro, não falo de um desses milagres canónicos, apostólicos e certificados por congregações romanas da fé, ou de uma façanha qualquer de um santo de calendário. Nem de água que se transforme em vinho, ou de outra qualquer metáfora com que as religiões sedimentam o poder das suas narrativas.
Falo de milagres mais simples, desses que estão acessíveis a todos nós no desempenho das nossas funções e no prosaico discorrer do tempo das nossas vidas. Desses que dão sentido às palavras simples de que muitas vezes já perdemos o sentido e esquecemos por completo.
Esta semana vi um desses milagres acontecer. Foi bem perto. E foi mágico e extraordinário.
Gostaria de vos poder contar quem é o “santo” mas não posso, que ele pediu, quase sob juramento, segredo a todos os presentes. E é ainda mais nobre que não queira que se saiba, ainda mais surpreendente.
Este milagre nunca dará lugar a um dia feriado ou a outras comemorações, Mas ficará apenas guardado no coração de quem o faz, na alegria de quem o sente, e na memória de quem o viu.
Não evito, neste este ofício de cronista, contar a história que vi. Mas como não posso contar lugares nem dar nomes as seus protagonistas, convido o leitor a passear noutra história que a literatura um dia me ofereceu, ainda jovem.
Foi na “Viagem ao fim da noite” – um livro duro, escuro e tenebroso de um “maldito” escritor Franceses, Louis Ferdinand Celine – que um milagre semelhante aconteceu.
O protagonista era um velho sargento de nome Alcide. Tinha escolhido viver em condições difíceis, quase desumanas, numa remota feitoria colonial, no meio da África então francesa. Andrajosamente vestido, o único bem material que trazia consigo era um fino fio de prata, de onde pendia um medalhão. Nele guardava-se, como um tesouro, a foto de uma menina, uma sobrinha vagamente aparentada que o sargento tinha visto apenas uma vez.
Alcide era o responsável pela manutenção de um posto de fronteira, no meio da selva, onde mais ninguém estava e onde ninguém queria ir. Na hora do pôr-do-sol, em uníssona gritaria, os bichos do mato incendiavam o ar e faziam  daquele lugar remoto a própria fronteira do inferno. Estando no seu posto, de onde nunca saía, Alcide enviava todo dinheiro que resultava do seu sacrifício tórrido para que aquela menina distante, no meio da civilização, em Paris, pudesse estudar.
E não havia nada que fizesse antever esse milagre. O sargento era um homem rude, mais parecido com um mendigo que com um militar Pedra bruta impossível de polir. Quem não o conhecesse sentia-lhe medo. Mas era esse mesmo o homem que dedicava toda a sua vida, sem querer nada em troca, a melhorar a de outra pessoa. Fazia-o apenas por simples bondade.
Quando dormia, olhando-lhe o rosto, ninguém poderia perceber quem era ele afinal: um improvável santo, sem qualquer morada sagrada, ermida peregrinável ou vaga de calendário. Era esse mesmo homem que fazia, quotidianamente, um extraordinário milagre.
(…)
Foi o que vi acontecer agora. Como se por magia, tivesse encontrado de novo, em Coimbra, desta vez de carne e osso, o meu velho conhecido Alcide.
Só que desta vez não foi nas páginas da literatura, nem nas preces de um beato. Ele estava ali, e, sem que nada o pudesse antecipar, dizendo uma letra depois da outra, soletrava lentamente, sem saber ler nem escrever, as sílabas de um milagre.

Não posso dizer o seu nome.

 

Piblicado originalmente no Diário de Coimbra 

José manuel diogo diarionde combta

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