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Estou longe de casa mãe.

Aqui no Brasil, na terra onde o teu pai, o meu avô António Fernandes, um dia veio experimentar a sorte.

Disseste muitas vezes que essa aventura na seringa em Manaus te mudou a vida. Primeiro para melhor, quando ele partiu; depois para pior, quando regressou.

Durante muitos anos olhei para meu pai Manuel, teu marido, e fazia nele a projeção possível dessa odisseia. Mas nunca pude compreender como a sua hipotética ausência me pudesse causar qualquer género de alegria.

Nestas datas penso mais em ti e nas tuas histórias, Piedade, mãe querida e ausente.

Hoje, voando de uma cidade para outra, aqui do lado do mar que te dava felicidade, vendo pela janela a noite pousar na asa do avião, penso: faz agora três anos que te foste embora.

Imagino que não foste para o céu, mas para outro lado qualquer, à procura de redenção para o que sentiste no dia em que o regresso do meu avô, teu pai, te fez infeliz.

Quando aprendi a tua dor pensei primeiro que não havia desculpa para ti. Porque não pode haver nada pior do que a distância de um pai. Sinto, quando às vezes estou ausente, que os teus netos, os meus filhos, Diogo e Carolina, sabem que estou fora por eles, para que a vida deles possa ser melhor. Mas sei que desejam sempre o meu regresso.

Depois, já separado da mãe deles, descobri que nem todos os pais são iguais. Que nem todos agem como eu. E que o amor é apenas o que sobra do que dás.

Por isso te admiro muito. Porque soubeste dar o que não tiveste.

Amaste-nos tão bem mãe. A mim e ao meu irmão, teu filho João.

Obrigado.

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