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Vistas sobre a cidade

Fevereiro 17, 2017

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Fábula num país à beira mar semeado, a propósito de uma celeuma fiscal sobre a forma de calcular o imposto municipal. A referida lei postulava: casa com boas vistas é melhor, por isso paga mais. 

A casa do meu tio tem boas vistas para o rio, já a da minha prima só as tem para cima. As do meu amigo Zé dão mesmo para o Calhabé, e as do padre Manuel dão para o café da frente, onde há quase sempre gente.

A casa do meu irmão, que é nos arredores, não precisa de estores, a da minha cunhada, que é muito assustada, não tem vistas para nada, ja os meus sobrinhos, como vivem com os pais, têm as vistas iguais.

A casa das gémeas Varela não tem nenhuma janela e a da viúva Lamego, uma casa sem enredo. Da casa do presidente, vê-se para trás e para a frente, mas as vistas do secretário têm a luz ao contrário. 

A casa do senhor doutor tem muita luz e calor, mas na da sua criada, só há luz de madrugada. Na casa do engenheiro bate o sol o dia inteiro, mas na do seu ajudante, nem com a ajuda de um sextante.

A casa do Raul, esta toda virada para sul, da janela do Eleutério, só se vê o cemitério.

A casa do Jorge Jesus, dá para o campo da Luz, o que por ser só assim, já o isenta “dimim”. 

Mas imposto de verdade, paga quem melhores as tem, as vistas para Alvalade. 

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