Ficção

Impõe-se

Abril 11, 2016

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“Tu não mandas em mim, eu faço o que eu quero”

O que se impõe não está do outro lado da vontade. É contrário a ela. A vontade é a única coisa que não se impõe.

Por isso, o que se quer e o que se impõe são incompatíveis. Como o são, quer e não querer. Ou, “ser ou não ser”, o que, como se diz muito, é sempre a questão. Vamos a ela?

Impõe pontua-se com til. Que empresta à palavra um certo ar vetusto e circunspecto quando escrita, e uma sonoridade soturna quando dita. E nunca apresenta uma vontade concreta ou desejada de qualquer das maneiras.

O que se impõe é passageiro e circunstancial. Vive das condições de enunciação que, como variam com os humores, às vezes estão lá, às vezes não. À segunda feira, por exemplo, costumamos impor muito mais coisas que à terça, e à quarta, e por aí fora até à quinta onde, pela proximidade do fim de semana, ou de outras delícias anunciadas, já não sabemos impor quase nada.

Noutra escala, maior; também importa saber que impomos mais coisas quando temos menos experiência. Impomos-nos ser aquilo que queremos ser e não aquilo que somos. Porque o que somos não é imposto. É receita. Perdemos muito tempo a impor em vez de libertar e acabamos sempre por nos arrepender disso. Só percebemos quando chegam as coimas.

Só nos impomos trabalhar em projetos aborrecidos quando não podemos fazer outros mais aliciantes. E quando termina essa imposição vem sempre um grande alívio. Porque já não se impõe. Impôs-se. Que na conjugação pretérita é mais circunflexo do que circunspecto. Mas por causa das manhãs da gramática.

O que se impõe é muitas vezes utilizado para desenhar a distância a que queremos estar das coisas sonhadas, ou que consideramos mais perigosas. Não uma vontade. E raramente uma razão.

Impõe-se! Dizemos quando algo que sentimos muito necessário não acontece. Raramente tem que ver com o extraordinário que já aconteceu. Ou está em curso. Isso nunca se impõe. Libera-se. E normalmente é muito bom.

Impõe-se que não te veja mais! É o que diz quem quer muito ver outra pessoa mas encontra nesse desejo um desafio maior, um desejo incontrolável, uma sombra de pecado ou uma culpa. É quase sempre injustificado. Mas só se percebe lá mais para a frente, quando já nem se pode impor.

Os sinónimos de impor impõem respeito: afeta, aplica, estabelece, inflige, infunda, obriga, sobrepõe;  coisas pouco recomendáveis que prometem, no mínimo, acabar em penhoras fiscais. Já os antónimos são outra coisa: libertar, remitir, desobrigar, desonerar, liberar, quitar. Uma espécie de ressurreição católica e de 25 de abril ao mesmo tempo.

A minha vontade é terminar este texto. Mas não me imponho terminá-lo. Pode até passar muito tempo mas, como lhe dou a graça inacabada das catedrais, ele vai estar sempre vivo e posso vir cá acrescentar-lhe coisas boas sempre que me apeteça. A mim ou a alguém.

Impõe-se isso.

( Foto: extrato do poema de Antonio Ramos Rosa “Daqui deste deserto em que presisto”)
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