Ficção

Para quem nunca está contente tinhas de beber vinho melhor

Junho 17, 2016

 

Não há nada como o tempo para nos ensinar. Para nos por de longe a ver o perto e nos mostrar o mundo como ele é. Simples como a cristalina luz da manhã.

Sofri tanto quando fugiste que ainda nem te pude agradecer – Obrigado por me teres deixado ir, obrigado por teres sido a hora H e o dia D da minha libertação. Se não me tivesses abandonado os aliados nunca teriam ganho a guerra; ou então voltariam a perdê-la, só para que se pudesse substituir um belo dia de sol por um ventinho desagradável de fim da tarde.

Se não fosses tu talvez eu ainda gostasse de beber “Esteva” tinto como se fosse vinho, quente como se fosse cognac e de  ficar parado com ar de mestre filarmónico entornado a admirar as notas de groselha verniz.

Se não tivesses batido a porta atrás de ti eu não teria parado de fazer buracos na casca dos queijos da serra, nem de os comer à colherada passando a tarde a desfazer cascas com a ponta dos dedos e a ouvir-te deslizar indignações cocotes sobre a vida dos outros.  “Ai isto e aquilo e ela e ele eu não sei como é que pode vida tão desorganizada”

Sabes? para quem nunca está contente, tinhas de beber vinho melhor. És muito fel para pouca acidez e muito negrume para tal fracos taninos. Há tão pouco em ti que até te dás ares de farol  vaidoso a querer iluminar tudo à tua volta.

Mas és já tudo o que tens. Pronto. Uma vertigem de nada. Zero. Nula. E és sempre assim, e olha que fazes bem, porque mesmo sem saberes, para ti não há mais nada. Estás no topo, és a única vencedora, a sapiência, Ágape de ti própria, personificação do bem e do paraíso do fim dos tempos e do amor infinito; e tudo na tua cara ao acordar.

Já nem te digo que não vale a pena essa amargura, porque finalmente percebo que sem ela não és nada. A tua cara de Cunegundes-enfim-lúcida, está para o que és, como a resolução de um teorema impossível para um matemático. As tuas rugas na testa, de tanto arregalares os olhos aos outros, são para a pintura as perspectivas de Gioto. O teu olhar de mar-mais-que-morto é uma inspiração de Ford, ou de Tesla, ou melhor, de Ford e Tesla e os dois juntos no mesmo dia. O teu humor é o quinto dos mistérios dando como certo que Hipócrates nunca tivesse chegado a ser pasteurizado.

Obrigado, obrigado. E nem foi preciso deus pagar-te, porque eu próprio me sinto na obrigação de retribuir esse teu rasgo, essa epifânica bondade com que naquele dia, e já nem me lembro bem qual foi, decidiste sozinha e sem recurso que a nossa vida era grande demais para ti. Obrigado.

Sei que vão  com atraso estas linhas. Mas mais vale tarde que nunca.

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